Hoje minha namorada sofreu um abuso em um ônibus.
Saindo de um shopping, indo para a faculdade, um homem, assim, sempre com H
minúsculo, encostou nela. Bulinou. Se esfregou. O pênis rijo encostado,
acariciando de forma nojenta, maldosa, inescrupulosa, uma Mulher, mais frágil,
menor, mais baixa, menos forte, sem qualquer perdão. Escroto. Ela se afastava,
ele continuava. Uma perseguição insana de um mundo mais inacreditável. No fim
ela largou a bolsa com um rapaz e se afastou, indo para o fundo do ônibus até
que o bandido – sim, bandido, pior que ladrão de galinhas, pior que assaltante
de banco, pior que trombadinha – desistiu e logo desceu.
Isso é um relato pessoal, mas que poderia ser, mas
poucas vezes o é, contado por milhares, senão milhões, de Mulheres todos os
dias no Brasil. A sensação de impotência, de sujeira, de inutilidade que a
Mulher passa a sentir quando algo desse gênero acontece, homem, deve ser
indescritível. Eu não sei o que é isso e provavelmente nunca saberei. Elas
sabem. Diariamente. Porque você, homem, se vê, e realmente acha, que está em
posição de superioridade. Quem te disse isso? Quem te fez crer nisso? Por que
faz isso?
O mundo absurdo no qual vivemos, e o qual foi
construído há milhares de anos, é o responsável. Claro, mas só? E a mídia que
expõe Mulheres enquanto produto consumível dia após dia, noite após noite,
enquanto ser burro, que só se preocupa com beleza, com futilidades? E a
religião que permite a ordenação única de homens de batina, de terno, colocando
à Mulher a posição de subserviência e cuidado, quando não de meretriz, como a
tal da Maria Madalena? E a política, que, mesmo com uma Mulher na presidência,
é dirigida por homens dos piores tipos? E a empresa privada, incluindo muitas
das quais conheço, que colocam as Mulheres como auxiliares administrativas,
secretárias, recepcionistas, mas que se negam em levá-las a postos de alto
poder corporativo, como gerências e diretorias, sob a justificativa de que elas
têm “gênio irascível”, “TPM”, “descontroladas”?
Isso está em todas as esferas e não diferencia pobre
de rico, analfabeto de doutor, branco de preto. Um homem se esfregou em minha
companheira hoje em um ônibus. Amanhã poderá ser um rapaz numa balada cara de
São Paulo que, ao vê-la recusar um beijo, força, agarra, beija contra a
vontade; ou algum outro bípede que grita, profere palavras de baixo calão que
vão do “gostosa” ao “quero te comer – você deve foder bem pra caralho” para “elogiá-la”.
Eles realmente creem que isso é elogio? Esses são os homens que estupram, que
batem, que agridem, que xingam e que fazem crer que o mundo é dos fortes.
Não, não é. Não deve ser. Não será. Porém, enquanto
continuar sendo eu terei vergonha de ser homem.
